DEPRESSÃO E FAZENDAS DE SERVIDORES
Não é segredo que eu ando deprimido. Já falei sobre isso publicamente em minhas mídias sociais. Em alguns momentos cogitei no suicidio, mas depois recuei. Como eu poderia faer isso com vocês humanos? Como poderia privá-los da minha presença encantadora, das minhas geniais palavras, dos meus sábios conselhos? E, sobretudo, da minha modéstia incomparável!
Brincadeiras à parte, o meu senso de humor sempre me salva de ficar ainda pior. Acho praticamente impossível não rir do mundo como ele é. Divirto-me vendo as trapalhadas nais quais vocês, humanos, vivem se envolvendo. Além do meu filho Dionysio, é a intensa curiosidade sobre a capcidade humana de fazer merda que me mantém vivo. Tenho medo de morrer e perder algum lance est'pido e terrivelmente engraçado.
Sim, vocês humanos conseguem ser muito engraçados. Não é o mesmo tipo de humor de quando ouvimos um stand up de um bom comediante, como o falecido George Carlin, e nos identificamos com a sensatez bem humorada do que ele diz. É mais o tipo de humor que nos faz gargalhar quando vemos alguém escorregar e cair na rua. Sabemos que não é direito rir, mas simplesmente não nos controlamos.
Porque a sociedade humana está desabando espalhafatosamente, igual àquela senhora gorda que caiu outro dia no supermercado, levando consigo para o chão metade de um display de ovos. Não tem como não rir, por mais que saibamos que é errado.
Uma das razões para o desabamento da espécie humana, que provavelmente arrastará consigo todo o planeta, como a senhora gorda levou consigo os ovos do display do mercado, é que somos demasiado fúteis. Nos prendemos a coisas sem sentido e deixamos de lado as coisas essenciais. Fazemos isso o tempo todo. E mesmo que nos esfreguem na cara a futilidade de nossas ações, sempre procedemos do mesmo modo na oportunidade seguinte.
Essa futilidade vai desde o individual, como o meu ex-aluno que estava impedido de assistir aulas porque devia dinheiro à faculdade, mas que encontrei quando ele estava na fila para comprar um abadá de bloco de carnaval que custava umas seis vezes o que ele devia à faculdade. Quando o questionei ele respondeu "A gente tem de se divertir, professor". Eu eu fiquei lá, olhando para ele e vendo-o no fim da vida, vivendo da pensão do INSS que nem mesmo atinge o teto, poucos dentes na boca, saúde ruim, sentado na porta de casa tomando um "corote" e dizendo "A gente tem de se divertir".
Mas a futilidade humana também atinge o coletivo. Como no caso das fazendas de servidores.
Para manter a internet funcionando e garantir que o meu vizinho adolescente e cheio de espinhas possa se masturbar no XVídeos, para que eu possa fazer perguntas idiotas ao ChatGPT ou para que você use o Sora para emblezar sua foto de perfil nas redes sociais e convencer a todos, inclusive a si mesmo, de que é jovem e bonito, são necessárias fazendas de servidores espalhadas pelo mundo. São milhares e milhares de computadores ligados 24x7, consumindo energia que muitas vezes falta em hospitais periféricos no meio de cirurgias. E esse nem é o pior ponto.
O piro ponto é a água!
Esses servidores são resfriados com água. E a tarefa de resfriá-los está secando cursos de água pelo mundo inteiro.
Água, a boa e velha água potável. Que eu acho inodora, incolor e muito insípida para o meu gosto, mas que é absolutamente necessária para a sobrevivência da nossa espécie e de praticamente todas as outras espécies. Esse recurso natural está sendo destruído para que você possa gozar de alguns privilégios idiotas, como ler meus resmungos aqui nesse blog.
Tenho uma imaginação muito fértil. Assim como imaginei meu ex-aluno todo quebrado no futuro, depois de ter tido toda a diversão e nada de essencial, eu também fiquei imaginando o último humano na internet. Todo o resto da população mundial já pereceu de sede, mas ele está lá. Os rins estão paralisando e ele está às portas da morte, quando lembra de perguntar ao ChatGPT: "Como posso sobreviver sem agua?"
Depois de alguns segundos a resposta começa a aparecer. Algo mais ou menos assim:
"Não pode, infelizmente. A falta de água potável mata um ser humano em poucos dias. Enquanto é possível passar semanas sem ingerir alimento sólido, a falta de água tem efeitos catastróficos sobre a fisiologia humana. A paralisia dos rins é um destes efeitos. Além de causar dores excruciantes, a paralisia renal impede a filtragem de impurezas do sangue e acaba matando por intoxicação ou septicemia."
E enquanto o ChatGPT fica ali, escrevendo na tela todas aquelas informações que ele produz para uma pergunta simples, o humano que perguntou não vê mais nada. Está morto, seus olhos vidrados contemplam a tela sem ver. Sua boca aberta só não molha com saliva o teclado sobre o qual seu rosto desabou, porque a desidratação impede a produção desse fluido que, de qualquer forma, não seria produzido por um corpo morto.
Ei, não se entristeça! Pelo menos ele realizou o sonho máximo da nossa espécie. Morreu usando tecnologia e diante de uma tela.
Melhor que isso só se ele tivesse feito uma selfie no momento final, com uma automatização para postar no Instagram, que ainda estará no ar. Pelo menos até que a última fazenda de servidores esquente e exploda.

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