IDEIAS PROFUNDAMENTE ANTIPÁTICAS - Parte 3 - SOU CONTRA A DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Há coisas que não adianta circundar, tergiversar ou ser diplomático. Há coisas que precisam ser ditas de vez, sem preparo, sem eufemismos. Então, lá vai!

EU NÃO GOSTO DESSA COISA DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA!

Que me perdoem Stephen Hawking, Marcelo Gleiser e tantos outros, mas eu acho o que vocês fazem um perigo para a sociedade. E vou explicar o motivo.

Ciência não é algo simples, muito menos simplório. E a mente da esmagadora maioria das pessoas é simplória, sim. Quando uma pessoa de mente simplória toma conhecimento de uma ideia científica, ela nunca está preparada para o que aprendeu. Ela não tem nem o arcabouço mental e nem o conhecimento a priori necessários para entender aquela ideia.

O que acontece, então?

Simples! Dispara na cabeça dela o chamado efeito Dunning-Kruger, que consiste em ser tão desconhecedor de um assunto que não se tem sequer a ideia da própria ignorância naquele tema. Como resultado, a pessoa ignorante que trava conhecimento com uma ideia científica acaba achando que sabe muito sobre o assunto. Acaba se tornando um pseudoespecialista.



E não há nada pior que um pseudoespecialista! Exceto, possivelmente, uma legião de pseudoespecialistas, que é justamente o que temos hoje em dia. Boa parte disso, claro, graças aos bons ofícios dos divulgadores científicos.

Vamos a três exemplos. O primeiro dos quais, diga-se de passagem, será uma evidência anedótica, como me disse um amigo que não me autorizou a citá-lo pelo nome aqui.

Participo — ou melhor, participava — de alguns grupos de Matemática e Física no Facebook, nos tempos em que o Facebook ainda servia para algo. Em um desses grupos, certa vez, estávamos discutindo alguns aspectos interessantes da Relatividade Geral. Éramos físicos e matemáticos ali, até que chegou um ignorante.

O sujeito mal e mal sabia escrever. Cometia erros absurdos de gramática e ortografia. Mas, como todo ignorante, julgava-se o mais sábio do local. E logo começou a dar lições a todos os presentes.

É bom lembrar que Relatividade Geral é um assunto espinhoso. É algo que até físicos discutem com cautela. E com bons motivos, porque descobertas recentes têm desafiado alguns conceitos que já tínhamos por certos. Mas não há nada mais confiante do que um ignorante! O sujeito disparava "verdades" a torto e a direito, sem ter a menor ideia do que estava falando.

Afastei-me do grupo para não perder a paciência com o tal sujeito e ser deselegante. Não faz sentido que eu, um homem com dois doutorados e um QI de 147 pontos, discuta com alguém que não sabe fazer concordância verbal ou nominal.

Não discuto Relatividade ou Mecânica Quântica com gente que não sabe resolver uma equação diferencial parcial com valores de contorno (preferencialmente tendo aprendido no excelente livro dos professores William Boyce e Richard DiPrima), nem com quem não faz ideia do que seja cálculo tensorial. Porque essas coisas são realmente necessárias para entender tais assuntos. Não é esnobismo acadêmico... Bom, talvez seja um pouco, mas é um esnobismo realista.

Agora temos tudo quântico! Massagens quânticas, bebidas quânticas... Até putas quânticas! Sim, é isso mesmo! Em um anúncio de um jornal paulistano, há poucos anos, havia uma mulher oferecendo orgasmos quânticos! Se não fosse o risco de uma venérea quântica, eu teria ido lá saber como era...

Um ex-aluno meu, Tomaz Passamani — hoje doutor em Física do Estado Sólido —, costuma levar aos colégios uma palestra intitulada CHARLATANISMO QUÂNTICO, na qual denuncia essas idiotices. Fenômenos quânticos acontecem no nível de subpartículas atômicas e só são detectados e medidos com aparelhos de extrema precisão, em condições laboratoriais rigorosas, geralmente dentro de aceleradores de partículas. Quem quer que te diga que produzirá um efeito quântico, inclusive um orgasmo, que seja sentido sem tal aparelhagem, está mentindo.

O meu terceiro exemplo foge da área da Física e entra na área da Psicologia: é a era dos narcisistas!

Tudo agora é narcisismo. Seu namorado foi embora com outra? Ele era narcisista! Sua mãe gostava mais do seu irmão que de você? Narcisista! O padeiro te vendeu pão dormido no lugar de pão fresquinho? Narcisista!

Isso se tornou uma verdadeira praga! O YouTube está cheio de influencers (outra praga...) que vivem falando sobre narcisismo sem terem sequer passado perto de uma faculdade de Psicologia. Não! Estou sendo otimista. Muitos não passaram perto nem do Ensino Fundamental! Mas são ouvidos por milhões e saem multiplicando essa idiotice de classificar todo mundo de quem não gostamos como narcisista.

Dar um diagnóstico de Transtorno de Personalidade Narcisista é tarefa para especialistas, assim como Relatividade e Mecânica Quântica. O problema é que livros e vídeos de divulgação científica levaram a terminologia dessas e de outras áreas para as massas incultas, que absorveram tudo isso erradamente, porque não tinham preparo para absorver de outra forma.

Aprender certos assuntos requer um arcabouço mental elaborado e conhecimentos prévios. Sem essas coisas, o que entra se transforma em confusão mental.

É por isso que não gosto da divulgação científica e sonho com a volta do hermetismo, quando cientistas e pesquisadores criavam linguagens próprias e inventavam mil modos de impedir que o conhecimento que desenvolviam chegasse às massas.

Pode parecer elitismo... e talvez seja mesmo... mas nem todos estão preparados para saber de certas coisas. Especialmente na nossa era, em que os imbecis perderam a vergonha da própria imbecilidade.

Antigamente, as pessoas menos privilegiadas intelectualmente sabiam que eram assim e ficavam na delas. Elas respeitavam quem estudava e jamais se atreviam a discutir com sábios. Imbecis eram imbecis; sábios eram sábios. E, como água e óleo, não se misturavam.

Agora os imbecis, que são muitos, reforçam as ideias estapafúrdias uns dos outros nas redes sociais. E como o critério atual é quantos likes uma coisa teve, os cientistas (que formam uma comunidade pequena e isolada) estão em séria desvantagem. Um influencer semialfabetizado pode ter dez milhões de seguidores, enquanto um cientista altamente qualificado será compreendido por poucos e seguido por menos gente ainda.

Quando começa o debate, o imbecil pode contar com milhões de likes e alegar que seu pensamento é o correto porque muitos concordam. Minha resposta a isso é que há bilhões de moscas na Terra e todas elas se alimentam de bosta, o que não faz da bosta um alimento nutritivo ou desejável.

Um dos argumentos dos que defendem a divulgação científica é que ela atrai a atenção de inúmeros jovens que se tornam cientistas no futuro. Pode ser que isso aconteça, sim. Mas eu, como matemático, gosto dos números. E para cada jovem atraído para a ciência pela divulgação científica, te apresento mil — ou dez mil — que apenas entenderam as coisas parcialmente e saíram por aí falando merda. A questão é saber se uma coisa justifica a outra.

Se quisermos mesmo atrair jovens para a ciência, o segredo não está em dar migalhas de conhecimentos complexos, mas sim em dar uma sólida formação básica. Jovens são curiosos por natureza. Se dermos uma base sólida e os deixarmos pensar, muitos se empolgarão com a aquisição de conhecimento e tomarão o caminho científico. Foi assim comigo. Foi assim com quase todo mundo que conheci em mais de quatro décadas de vida acadêmica.



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