Faça suas escollhas... e pague por elas!
Semana passada o parlamento inglês aprovou uma lei extremamente invasiva, segundo a qual pessoas nascidas de 2009 para cá nunca poderão comprar cigarros.
É mais uma daquelas leis
estúpidas, que não servem para nada a não ser para mostrar que o Estado está
sempre disposto a se meter na vida das pessoas, legislando sobre o que não
deveria e reduzindo gradativamente os direitos e liberdades dos indivíduos.
Qualquer pessoa nascida de 2009
para cá certamente tem amigos nascidos em 2008 que podem comprar cigarros para
ela, de modo que a lei é absolutamente inútil, é claro. Em quase todo lugar do
planeta menores não podem comprar bebida alcoólica, mas isso nunca impediu
menores de beberem. Só criou dificuldades que tornam a bebida mais interessante
do que deveria ser. Conheci muitas pessoas na minha juventude que começaram a
beber sem gostar nem um pouco, apenas porque era um ato de “rebeldia contra o
sistema”. Sim, sim... Jovens são estúpidos a esse ponto!
A desculpa dos legisladores
britânicos é o impacto no sistema de saúde causado pelo tabagismo. Uma desculpa
válida, claro. Afinal de contas, o sistema de saúde é pago com o dinheiro dos
impostos de todos e não é justo que todos paguem pelas decisões de alguns.
Assim, eu tenho uma proposta melhor a fazer para os sistemas de saúde do mundo
todo: Por que não garantir as liberdades individuais, permitindo que as pessoas
continuem fumando, desde que assinem um compromisso de que não procurarão o
sistema de saúde caso o tabagismo traga algum mal, arcando com os custos do
próprio tratamento?
Essa proposta pode não parecer
muito simpática, mas preserva dois direitos importantes: a) O das pessoas
decidirem sobre suas vidas pessoais sem a intervenção do Estado; e, b) O dos
contribuintes de não pagarem pelas más escolhas dos que optarem por fumar.
Aliás, isso poderia ser estendido
para outras coisas. Como a bebida, por exemplo, já que a mesma sociedade
britânica que quer impedir os jovens de fumar não faz nenhum esforço real para
que eles não caiam de bêbados pelas ruas. Lembro bem de uma reportagem sobre
bares de Londres que tinham aparelhos de inalação onde os jovens podiam
respirar whisky, vodka, gin e outras bebidas, o que facilitava a embriagues, já
que o álcool ia diretamente para os alvéolos pulmonares e daí para a corrente
sanguínea, sem passar pelo “tratamento” do sistema digestivo.
Será que o álcool não causa
nenhum impacto no sistema de saúde britânico?
Claro que causa! O álcool causa
doenças diversas, entre as quais a degeneração do fígado e o enfraquecimento
dos rins. Alguém tem aí uma estatística de quando cada pessoa fazendo
hemodiálise custa para os sistemas de saúde no mundo todo, desde que essa
necessidade começa até o final de suas vidas? O álcool provoca acidentes de
trânsito nos quais pessoas morrem ou, pior, ficam permanentemente inválidas ou
em estado vegetativo, custando verdadeiras fortunas ao sistema de saúde e à
seguridade social pelo resto de suas vidas... Que pode ser bastante longo, por
sinal. O álcool causa incidentes de violência que tiram vidas e podem deixar
pessoas inválidas ou em estado vegetativo.
Os que conhecem minhas tendências
socialistas vão considerar o que direi agora uma heresia, mas eu concordo
integralmente com o economista liberal Milton Friedman, que defendeu, desde os
anos 70, a total liberação das drogas, todas elas, e sua taxação. Ele dizia, e
eu concordo, que o Estado perdia uma grande fonte de receita com essa
proibição, além de criar problemas desnecessários.
Temos de começar reconhecendo que
a proibição das drogas nunca impediu que as pessoas as usassem. Dificultou,
talvez, mas não impediu. Não é, por conseguinte, uma proibição eficiente. Um
grande exemplo disso é o período da Lei Seca na história dos Estados Unidos.
Reconhece-se hoje que nunca se bebeu tanto naquele país quanto nesse período. Além
disso, a Lei Seca propiciou o crescimento do crime organizado. A máfia
estadunidense, a chamada “Cosa Nostra”, cresceu muito nesse período. Criminosos
como Al Capone, em Chicago, só se tornaram possíveis por causa da Lei Seca.
UMA CURIOSIDADE: Pouco antes da
revogação da Lei Seca um repórter perguntou a Eliot Ness, o grande xerife da
Lei Seca, líder dos chamados “Intocáveis”, responsável pela prisão de Al
Capone, o que ele faria, caso e revogação fosse aprovada. Ele respondeu que
iria tomar um trago. Alguns anos depois, acometido de cirrose pelo consumo
excessivo de álcool e e cheio de dívidas, Eliot Ness morreu de um infarto agudo do miocárdio em sua casa, com apenas 54 anos.
Aqui no Brasil vemos o imenso
prejuízo que a proibição das drogas causou. O crime organizado cresceu
imensamente em torno do narcotráfico, agora disputado por facções criminosas e
milícias de policiais. Ninguém deixou de fumar maconha, cheirar cocaína, fumar
crack, injetar-se com heroína ou de usar qualquer outra droga por causa da
proibição. Os que têm dinheiro, compram. O que não têm, roubam para comprar,
agravando o problema da Segurança Pública. Meu filho mais velho foi assassinado
em 2023, por dois rapazes que queriam roubar o carro dele, muito provavelmente
para vender e comprar drogas.
Quantas vidas de policiais foram
perdidas nessa guerra estúpida? Quantas crianças e quantos adultos, pessoas que
nunca usaram droga, receberam “balas perdidas” em portas de escola nos últimos
anos, devido aos policiais e traficantes trocando tiros ali perto? E para quê? Nada! Nenhum resultado concreto! O
narcotráfico continua mais forte a cada dia. O Rio de Janeiro hoje tem dois
governos, o do Palácio Guanabara e o dos morros, sendo que este último é muito
mais penetrante e eficiente. Se o governador do Rio de Janeiro decretar que a
próxima segunda-feira é feriado, muitos comerciantes abriram as portas
normalmente, ignorando a determinação. Mas se um “gerente de boca” do morro
disser que segunda-feira ninguém trabalha no morro, eu duvido que algum comerciante
tenha peito para abrir seu comércio.
O que foi que levou a esse estado
de coisas?
A proibição das drogas!
Legalizem tudo! Legalizem tudo
para que os interessados não precisem subir os morros e possam comprar na
farmácia da esquina. E taxem! Façam com que as pessoas paguem por seus vícios,
para que a sociedade como um todo não tenha de pagar, como acontece hoje.
Eu sou um defensor das liberdades
individuais. Não acredito que o Estado tenha o dever, muito menos o direito, de
legislar sobre a minha vida pessoal. Até porque isso nunca tem limites.
Hoje alguém cria uma lei com a
desculpa de que o tabagismo causa impacto sobre o sistema de saúde. Logo alguém
pensa no impacto que o sexo pré-marital causa, com tantos abortos, mulheres
morrendo em abortos clandestinos onde estes são proibidos, mães solteiras
abandonando os estudos e entrando em subempregos para criarem seus bebês... São
tantos problemas... E pronto! Logo aparece um legislador querendo aparecer para
seus eleitores com uma lei que proíbe as pessoas de treparem sem casamento! Faria
sucesso, nesses tempos de neoconservadorismo, uma expressão que é um oxímoro
por natureza, como “inteligência militar” ou “ética comercial”. E lá estará o
Estado se metendo até na vida sexual das pessoas!
Não! É preciso colocar limites ao
que o Estado pode ou não legislar!
As constituições, caso não se
lembrem, surgiram para isso, para colocar limites no que os reis podiam ou não
fazer. Naqueles tempos de monarquia absolutista, o rei podia legislar como
quisesse. Podia matar os camponeses de fome elevando os impostos. Podia
confiscar e redistribuir, ou simplesmente tomar, propriedades e negócios. Podia
fazer o que quisesse.
Mas o Poder é assim, ele sempre
tenta expandir-se. Não importa se os chamamos de reis, presidentes,
primeiros-ministros, chanceleres ou qualquer outro termo, os governantes sempre
desejarão mais e mais poder. E nessa saga, tentarão invadir cada vez mais os
direitos e liberdades individuais.

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