Os riscos da "monstrificação"
Eu gosto de lembrar sempre que só existem “influencers” porque existem “idioters”.
Segundo este “influencer”, Jefrey Epstein não era humano, era um monstro.
Sempre que uma pessoa comete atos que parecem absurdamente cruéis, logo dizem que era um “monstro”.
Hitler era um monstro, Stalin era um monstro, Pol Pot era um monstro. Ted Bundy era um monstro.
Não, nada disso é verdade. Todos eles eram humanos. Ou, como diria Friedrich Nietzsche, demasiadamente humanos.
Ao “monstrificarmos” os autores de crimes bárbaros, acabamos criando alguns problemas graves.
O primeiro desses problemas, e talvez o maior, é que escapamos da realidade e perdemos a dimensão exata da capacidade humana para o mal.
Hitler, Stalin e Pol Pot não eram monstros. Eram apenas homens sedentos de poder, que mataram milhões simplesmente para poderem impor seu poder.
Ted Bundy não era um monstro. Era apenas um homem mentalmente doente, com uma fixação doentia em estuprar mulheres, vivas ou mortas, além de (provavelmente) canibalizar seus corpos.
Todas as coisas, a sede de poder e as perversões sexuais, são coisas absolutamente humanas. Não há nada de monstruoso nisso. É apenas a velha natureza humana agindo.
Ao “monstrificar”essas pessoas, perdemos essa dimensão e nos colocamos na confortável posição de expectadores inocentes de tudo que fazemos, como se não fôssemos culpados de nada.
Em função disso surge um outro problema: Deixamos de evoluir.
Sim, é isso mesmo. Como não nos vemos como culpados de nada, não há motivos para que mudemos nosso proceder.
Enquanto pessoas como Hitler, Stalin e Pol Pot forem vistas como “monstros”, não aprenderemos a ensinar nossas crianças humanas para que não desenvolvam essa sede de poder.
Enquanto Ted Bundy for visto como um “monstro”, não estudaremos profundamente a origem dessas perversões sexuais violentas. Afinal, elas não são coisas com as quais nossa espécie precise se preocupar, já que são exclusivas de “monstros”.
Jefrey Epstein era um homem perturbado, com uma fixação sexual em garotas muito jovens. E como acumulou dinheiro no mercado de ações, no início de sua vida, teve acesso a pessoas poderosas que tinham a mesma fixação sexual. Então, sendo o homem inteligente que obviamente era, achou nisso uma maneira de desenvolver relacionamentos, fazer negócios e lucrar muito. Criou uma rede de contatos com algumas das pessoas mais ricas e poderosas do planeta.
Essas pessoas, por sua vez, não eram “monstros”, mas apenas pessoas decididas a usar o poder que possuíam, e possuem ainda, tendo experiências que são proibidas para as pessoas comuns. Se eu transar com uma garota de treze ou catorze anos, provavelmente acabarei preso. Mas o irmão do rei da Inglaterra ia para a ilha de Jefrey Epstein e fazia isso sem problemas. Os problemas só chegaram depois que sua família, temendo que sua exposição negativa causasse um dano severo à imagem da monarquia britânica, o abandonou. Foi só por isso que ele acabou preso.
Não há nada de “monstruoso” em Jefrey Epstein ou em Andrew Windsor-Mountbaten. Apenas homens ricos e poderosos abusando da riqueza e do poder para satisfazer suas perversões sexuais.
Os Alcoólicos Anônimos têm um índice de recuperação de alcoólatras elevado. O primeiro passo que uma pessoa dá no AA para recuperar-se do vício da bebida é chegar diante de um grupo de pessoas, durante uma das reuniões, e dizer “Eu sou um alcoólatra em recuperação”.
Sem esse passo, sem confessar seu problema, não há cura. Não é apenas para aquelas pessoas que cada um está falando. Eles estão falando para si mesmos. Estão aceitando a condição do alcoolismo e, a partir daí, tomando atitudes que conduzam à cura.
Quando declaramos que as pessoas que fazem coisas absurdas são “monstros”, perdemos a chance da cura.

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